Mãe e pai de menino: eduque seu filho para que ele não seja o cafajeste do próximo carnaval

Cafajeste

Mais do que se preocupar se seu filho vai ser médico ou engenheiro, você tem que se certificar de que ele não vá ser um cretino. Porque ninguém nasce cafajeste (assim como ninguém nasce médico ou engenheiro) então se ele se tornar um canalha a culpa é toda da educação que vocês deram (ou deixaram de dar).

Neste carnaval uma amiga jornalista mal conseguiu trabalhar em um bloco na Vila Madalena porque era assediada fisicamente pela “acadêmicos dos cafajestes”. Ela estava devidamente identificada com o microfone da empresa onde trabalha, mas nem assim foi respeitada. Os machos alfa se sentiram no direito de mexer no cabelo dela e de tocá-la insistentemente de forma desrespeitosa. Mesmo ela gritando, mesmo ela empurrando e mostrando de todas as formas que esse assédio não era bem-vindo. Eles não aceitam o “não” e acreditam que mulher de minissaia quer e merece ser estuprada, a de calça justa está querendo se mostrar e mulher que saí à noite quer sexo. Se além de tudo ela estiver no carnaval é certeza: “ela quer dar para mim, todas querem porque eu sou demais”.

Pais e mães: a responsabilidade é toda de vocês.
São vocês que renovam estereótipos do tempo das cavernas quando acham um horror que as meninas saiam à noite, mas acham lindo que meninos de 15 e 16 anos já estejam frequentando boates.Bêbados. Menina que faz isso é vagabunda, mas os meninos não, eles tem mais é que sair e, se possível, começar logo a transar. “Isso é coisa de homem”, pensam pais e mães que acham super natural e até estimulam que eles percam a virgindade com prostitutas e que manipulem as mulheres. “Meu filho é macho, tá pegando fulana e beltrana”. Não, não. Seu filho é um canalha, assim como vocês.

Vocês acham lindo quando eles trocam de namorada como trocam de roupa, afinal isso é sinal de virilidade. “É da natureza deles”. Não, senhoras e senhores, não é. Vocês os criam para se sentirem no topo da cadeia alimentar, os enchendo de privilégios e cobrando poucas responsabilidades. E é você, mãe, que não dá o exemplo quando julga a filha da vizinha e tira o olho do seu próprio filho. E você, pai, não dá o exemplo quando diz vulgaridades a uma mulher na rua na frente dele.

Se o homem tá sem camisa ele vai pro futebol. Se uma mulher está com um shorts curto quer se mostrar e merece ser assediada. Pois é. Cabe a vocês e somente a vocês olhar o mundo de outra forma e ensinar a seus filhos homens a fazer o mesmo. Por um carnaval menos machista daqui a 15 anos, quando nossos filhos pequenos estiverem prontos para curtir a folia.

Eu, pai

Hoje por Marc Tawil
Cora
Na gélida mesa de ressonância magnética do Hospital Samaritano, em São Paulo, entubado até os cabelos, eu só conseguia mentalizar a frase dita alguns dias antes pelo meu amigo e mentor Claudio Junqueira: “Marc, tem coisas na vida que a gente só passa sozinho”. A ressonância para verificar se um ligamento da mão esquerda estava rompido (o que se confirmaria três horas depois), fruto de uma queda na véspera, foi a minha estreia nos 40 anos, comemorados naquela mesma segunda-feira ensolarada de 16 de dezembro de 2013.

Nos 44 minutos que durou o exame, independentemente do resultado, só havia uma certeza: tem coisas na vida que a gente só passa sozinho.

Na mesma segunda-feira engessada, enquanto eu fazia malabarismos para abotoar a camisa do dia, decretei que 2013 havia fechado para balanço. Era hora de me preparar para o mais importante: a chegada da nossa amada e esperada filha, Cora Esther.

Foram 40 anos de vida, 40 dias de espera. Em 28 de janeiro de 2014, com 40 semanas gestação, deixamos nosso apartamento cheios de ansiedade e esperança rumo ao Hospital Albert Einstein. O parto normal era a nossa escolha mas, às 13hs, depois de 5 horas de espera, o plano A deu lugar a uma césarea, nosso plano B.

Deixei as malas no quarto 810, lavei o rosto, tranquei a porta e fui cuidar da família. Minha nova família. Pelos corredores infindáveis do Einstein, rumo à sala de parto, meus olhos ardiam e minha mente martelava nomes e rostos de pessoas que cruzaram e floriram o meu caminho: gente que me pegou no colo, gente que vi uma vez só, gente que me ajudou, gente que eu ajudei, gente que sempre esteve ali, gente que não está mais aqui… Um desfile de rostos e sorrisos que me desejavam “boa sorte!” e me sopravam “vai dar tudo certo!” ao pé ouvido. Eu podia escutar essa gente toda e me emocionava com sinceridade.

Fui até a sala de cirurgia carregado nos ombros pela gente, mas entrei só com a minha avó materna, Esther, em espírito. Deitada, de toca azul e coberta por um lençol da mesma cor, minha mulher, Elisa, me olhava linda, tensa. Nosso médico, Dr. Marco Antonio Lenci, irreconhecível de tão compenetrado, nos dava seu último presente antes do parto: a presença de seu guru, Máximo, um oriental que me acolheu, me acalmou, me orientou: “Importe-se em receber a sua filha, fale com ela, toque-a, olhe em seus olhos. Receba-a”.

13h30. A equipe se entreolha e somos avisados que, dali em diante, os próximos cinco minutos nos levariam a uma outra dimensão. Às 13h36, o silêncio dá lugar a um choro agudo, quase metálico. Ao ver a Cora pela primeira vez, como um passarinho com dificuldade para deixar a casca do ovo, meu coração dispara. Não consigo acreditar que tudo aquilo é verdade, que fomos capazes de acertar tanto. Não choro, não fico tenso, não desmaio, não nada. Só consigo sorrir, agradecer e agradecer. Imediatamente, Cora é colocada junto ao peito da mãe. “Ela é linda, amor, ela é linda!” Era mesmo… Olhos bem abertos, pés, mãos, nariz, cabelos…

Os rostos e sorrisos que tanto torceram por nós invadem a sala de parto, agora com palmas e gritos de “não te dissemos?!?!?” Verdade, eu sempre fui avisado que tudo daria certo.
Hora de receber a Cora em meus braços. Envolta em um pano branco, ela cala o choro e me olha fundo nos olhos, como quem diz “posso ficar aqui?” E eu respondo em voz alta: “Claro, filha”. Naquele instante, eu virei pai.

Quero ser mãe. Mas não posso. Nem eu e nem a Vânia.

gravida dois
Não tem coisa pior para quem sempre sonhou em ser mãe do que ouvir do médico: “Você não pode engravidar”. Não chorei quando aos 20 anos soube que tinha câncer. E sabe por quê? Porque tinha certeza que não ia morrer. Tinha vindo ao mundo realizar dois sonhos: ser jornalista e ser mãe. Mas o choro chegou de forma compulsiva aos 32, já jornalista, ao ouvir de outro médico que não poderia realizar meu segundo sonho. Trompas obstruídas por motivos que ele nem quis saber muito, já que não interessava. Era irreversível.

Vânia podia ser mãe, mas não engravidava. Ela aparentemente não tinha problemas físicos ou anatômicos, nem o marido. Mesmo sem um diagnóstico, o tratamento era o caminho. Foram sete anos de tentativas. Diversos médicos. Dez fertilizações in vitro. Inseminações, coito programado. A gravidez chegou. Cinco vezes. Duas delas nas trompas. Perdeu as trompas. Em todas as perdeu o bebê.Mas não a fé.

“Eu não quero ter mais filhos”. Meu destino parecia selado. Um divórcio conturbado e o sofrimento de ser impedido de ver os filhos fez com que meu marido tomasse essa decisão. Casei com ele sabendo disso. Não fui enganada, não podia fazer cenas, chantagens, escândalo. Eu sabia. Ele estava irredutível.

Vânia é médica. Ginecologista. Obstetra. O marido também. Eles ajudam mães a trazerem seus filhos ao mundo. E ver esse milagre acontecer todos os dias dá forças para que continuem. Decidem procurar uma barriga de aluguel. Na Índia, onde a prática é legal.

Eu decido pela terapia de casal, “nem por você nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos”, nem pelo meu marido, nem pelo meu casamento, que era tão bom e que eu prezava tanto. Ele se abre à ideia, deixa o sofrimento para trás. Embarcamos mais juntos do que nunca na primeira fertilização in vitro. Dá errado.

Vânia está de viagem marcada, passagens compradas. Conheceu um novo médico, que pede uma chance de ajudá-la. Ela embarca não para a Índia, e sim para a décima primeira fertilização in vitro. Engravida mais uma vez. Sangramentos, repouso, cirurgia no colo do útero. Ela já viu esse filme tantas vezes. Mas o bebê está lá, crescendo. Luiza.

Segunda tentativa. Três embriões. Eu engravido de um só. Sangramentos, internações, dois meses de repouso. Mas o bebê está lá, crescendo. Samuel.

Samuel nasceu saudável e lindo em março de 2010. Luiza cheia de saúde e alegria um pouco depois, em dezembro de 2010.

Pai que só é pai QUANDO E SE a mãe deixa ele ser pai

alienação
Li ontem um texto muito legal de um blog materno descrevendo uma categoria horrível de pai: “O pai quando dá”. É aquele cara que coloca todos os compromissos à frente dos filhos. Não pode ficar com as crianças nem aos sábados e aos domingos, não pode comparecer às reuniões de escola e nem tem tempo (ou vontade) de participar de nada relacionado à vida das crianças. Trabalhar e reconstruir a própria vida são maiores que a obrigação de criar quem ele ajudou a colocar no mundo.

Mas hoje quero escrever sobre uma outra categoria de pai: “O pai que só é pai QUANDO E SE a ex-mulher deixa”. Tenho um desses pais no meu círculo de convivência. Enquanto ele era apenas um pai separado, podia ser pai. Pegava os dois filhos na casa da ex-mulher sem maiores problemas: Um deles era um bebê de pouco mais de um ano que ele conseguia cuidar sozinho perfeitamente. O mais velho tinha quase cinco anos e os dois sempre foram muito ligados. Quando esse homem arrumou uma namorada com quem se casou anos depois, olha só, ele não servia mais para ser pai. Foi proibido de ter acesso aos filhos. A ex-mulher entrou na justiça dizendo que o ex-marido era usuário de drogas. A justiça, claro, demorou séculos para perceber que não era o pai que tinha problemas. Neste caso, quase dois anos. Ele fez um exame toxicológico por conta própria e entregou para sua advogada. Ele a namorada tiveram de passar por sessões com a psicóloga do fórum que demorou dois anos para escrever em um papel que era a mãe que precisava de ajuda. Mas o conteúdo desse documento foi aparentemente ignorado pelo juiz.

A ex-mulher tentou proibir que ele entrasse no prédio onde o casal morou por anos e de onde ele saiu após a separação e ela ficou com as crianças. Residência que ele tinha comprado muito antes deles casarem. O porteiro que o conhecia há anos foi mais rápido e justo que a justiça. Disse que não iria barrá-lo porque ele era o proprietário do apartamento. E assim, dependendo do bom senso de estranhos, ele conseguia ficar no playground esperando a babá descer com os filhos dele. Se ela descesse, ótimo. Se não aparecesse, tempo perdido, tente outro dia. Algumas babás (foram várias em dois anos) mal deixavam que ele chegasse perto dos próprios filhos, como se fosse um criminoso. O crime que cometeu? Reconstruir a própria vida depois de um casamento fracassado. Casar de novo. E não desistir dos filhos que teve com a ex.

Os anos se passaram e a justiça fez “justiça”- ele podia ver os filhos a cada 15 dias. Em 30 dias ele tinha direito a míseros quatro dias com as crianças. Mas a mãe sempre marcou compromissos nesses poucos dias que os filhos têm para ficar com o pai: Decidia, por exemplo, viajar nos dias das crianças com ex-marido. “Você não vai impedir que seus filhos façam um passeio à praia, vai? Eles estão cansados das tarefas da escola!”, diz, tentando justificar o injustificável. Se é ele quem decide viajar com as crianças ela se sente no direito de decidir de qual forma os filhos podem viajar, como se o pai não tivesse bom-senso ou cuidado com as crianças. “Eles só vão se for de avião”, ele já ouviu várias e várias vezes. Da última vez a viagem era para ir (de carro) ao casamento de um primo: Os meninos não puderam ir porque, segundo ela, tinham semana de provas na escola.

Quando a pensão alimentícia foi revista na justiça a pedido do pai (já que ele ganha agora metade do salário de quando o valor foi acordado) o que já era ruim, ficou pior. Ficou claro que “quem não paga o que acho que eles valem não leva” e ele ficou dois meses sem ver as crianças por motivos vagos e subjetivos: “Estão doentes”. “Vão dormir na casa de um amigo”. Quando finalmente conseguiu que as visitas fossem retomadas as crianças foram à casa do pai de shorts e camiseta em pleno inverno. Ele teve de correr ao shopping comprar agasalhos com os quais os meninos voltaram para casa: assim ela conseguiu recuperar uns “trocos” do que a justiça tirou do valor da pensão. Pensão que ela diz aos filhos que o pai não dá: “Sou eu quem paga a escola de vocês!”. Sim, é ela, com a ajuda dele, mas é claro que a verdade não ajuda na hora de “pintar” esse pai horrível que ela quer que os filhos acreditem que têm.

Claro que quem perde no caso do “pai quando dá” quanto o do “pai que só é pai QUANDO E SE a ex-mulher deixa” são os filhos. A justiça é lenta e não está aberta para subjetividades e só agora começou a descobrir a alienação parental. Os frutos desse distanciamento são evidentes: pai deprimido e crianças com problemas. Os filhos se ressentem da ausência do pai e têm ciúme do irmão mais novo, fruto do novo casamento dele. “Por que eu passo pouco tempo com meu pai e meu irmão fica com ele todos os dias?”, esse deve ser o pensamento das crianças que são criadas ouvindo sempre que possível que o irmão pequeno “é meio-irmão, viu? Não é irmão de vocês!”

A criança mais novinha que tem “meio-irmãos” que para ela são super-heróis também sofre, claro. Ela chora e não entende porque não pode vê-los sempre que tem vontade, não entende porque não é convidado para as festas de aniversário ou para brincar na casa deles como brinca na dos seus melhores amigos.

Adultos. Essa palavra deveria ser dada apenas àqueles que comprovem que o são. Filhos: deveriam ser concedidos apenas a adultos.

Sou eu assim sem você (por 42 horas)

Sem você
Quarenta e duas horas sem te ver acordado. Exagero? Pode ser. Mas só quem é mãe faz essa conta. Saí mais cedo para o trabalho porque era dia de rodízio, trabalhei o dia inteiro e fui direto para um jantar à noite com seu pai. Chegamos tarde, acordamos cedo e você ainda dormia. Trabalhei mais um dia inteiro e estou aqui na porta da escola te escrevendo e fazendo as contas. Isso mesmo. Já faz 42 horas que não te vejo de olhos abertos. Enquanto você dormia te cobri de beijos. Você ensaiou um despertar e confesso que até torci por isso. Depois falei com você pelo telefone, mas você estava naqueles dias de poucas palavras. Coisa de menino.

Olho o relógio: 17:14. Faltam 16 minutos para te ver e meu coração aperta. Daquele jeito que só quem já se apaixonou profundamente sabe como é. Quero muito te abraçar e te beijar. Olhar bem nos seus olhos e contar que senti sua falta. As mães sabem que o nome disso é saudade. Nessas 42 horas e alguns minutos descobri o que já sabia. Você é minha prioridade e por isso jantares como os de ontem são exceção. “Que exagero”, pensarão alguns. As mães sabem que o nome disso é prioridade.

17:18 Agora faltam 12 minutos para o portão da escola abrir. Não vejo a hora de te encontrar como o uniforme todo sujo e descabelado. Quero saber do que você brincou, o que desenhou e se hoje foi dia de aula de música. Mal posso esperar chegar na porta da sua classe e ouvir o grito: “mamãe!” O mundo todo congela enquanto você corre para pular no meu colo. Carinhoso como é, deita a cabecinha no meu ombro e passa a mão nas minhas costas daquele jeito que os adultos fazem quando querem afagar alguém.

17:24 Só mais seis minutos. A saudade sempre é tanta que a gente fica conversando e demora para pegar a mochila e ir para o carro. Mas hoje temos que correr. E você, que já conhece os dias da semana, vai me perguntar: “Vamos para a natação, mamãe?” Sim. Vou levar você para nadar. Eu tinha que terminar uns textos, colocar umas roupas para lavar, mas faço questão de te levar à aula. Tem sido assim desde os seus seis meses e agora você tem quase 4 anos. Devem ter sido umas 200 aulas de natação, umas 200 horas com o rosto colado no vidro da academia te assistindo bater perninhas e bracinhos – 200 horas que eu podia estar na musculação ou no pilates. Eu ganhei uns quilinhos já que não me exercito como antes, mas você ganhou confiança e já não precisa de bóias. “Que exagero”, podem decretar alguns. Mas para mim essa troca tem outro nome: doação. Certeza que tudo valeu a pena, filho.

17:28 Saio do carro e sou uma daquelas mães que se acotovelam no portão. Gosto de ser uma das primeiras a entrar, quero estar lá na hora que seus olhos procurarem por mim. “Que desespero!”, eu pensava quando as via de dentro do carro, quando ainda não era mãe. Hoje sou uma delas e sei que o nome disso é outro: amor.

17:30 O portão se abre. Caminho até a classe e te vejo conversando com um amigo. Você corre em minha direção e me abraça. O mundo para. Eu te aperto forte. E volto a respirar.

Não se fazem mais avôs como antigamente. Ainda bem.

avô

Os avôs de antigamente era aposentados e ficavam em casa assistindo ao futebol. Ou iam para praça (de boina) jogar dominó. Alguns chegavam na porta do banco horas antes da abertura porque, sem ter muito o que fazer da vida, ficavam lá reclamando das dores, da vida, dos filhos e de quebra jogando conversa fora. Tinham a coluna curvada e cabelos muito, muito brancos. Andavam devagar porque tinham dores pelo corpo todo. Precisavam de ajuda para as tarefas diárias.

Mas os avôs de hoje são diferentes. Saudáveis, querem uma vida cheia de novidades. Já criaram os filhos, quitaram o apartamento e só trabalham porque querem complementar a aposentadoria. Porque para viajar, estudar línguas, jantar em bons restaurantes e também presentear filhos e netos precisam de dinheiro.

Desde que meu filho nasceu meu pai tem sido meu braço direito e esquerdo. Minha mãe morreu há sete anos. A família do meu marido mora longe. Mas meu pai mora a duas ruas da minha casa. É para ele que a gente liga quando precisamos sair, quando a geladeira quebra, quando não temos chave de fenda. Não sei o que seria da minha vida se ele não tivesse por perto.

Eu nunca quis sobrecarregá-lo. Quando voltei ao trabalho cinco meses depois de o Samuca nascer contratei uma babá, mas ele ficava ajudando a moça. E como ela ia embora antes de chegarmos, meu pai assumia a função: trocava fraldas, dava banho, preparava mamadeiras, limpava os dentinhos e colocava para dormir. Às vezes eu encontrava umas fraldas colocadas ao contrário – a parte do bumbum na frente e a do pipi atrás –  mas meu filho estava sempre limpo e feliz.  E só depois das nove da noite meu pai ia embora dormir para trabalhar no dia seguinte.

Quando o Samuel foi para a escolinha contratei o transporte escolar. Sabia que se eu pedisse para meu pai buscá-lo ele não iria me dizer não. Mas tudo o que menos queria é que fosse obrigação dele, sabe?  Só que o vô se ofereceu: queria buscar o neto. E ele sempre exerceu a função com tanto carinho e responsabilidade que eu só ouço elogios das outras mães: “o avô do Samuca é melhor que muita avó, viu Rita?”.

Samuca cresceu e demanda menos cuidados. Eu mudei de trabalho, consigo conciliar melhor os horários: Meu marido leva e agora sou que quem vai buscá-lo na escola. Mas, às vezes, tenho que trabalhar até mais tarde. Sexta passada foi um desses dias. Liguei e perguntei se meu pai podia me substituir na função. E ouvi o inesperado: “vê se não vai demorar, viu, porque tenho um encontro!”. Eu tentei argumentar, “mas pai, eu preciso tra-ba-lhar!”. Ele disse que tudo bem, mas que tinha que sair da minha casa até às oito e meia da noite porque ia encontrar com uma pessoa. Corri o mais que pude, peguei trânsito. Pelo telefone, ele me monitorava. Quando cheguei o Samuca já tinha jantado, tomado banho e estava de pijama.  Meu pai também estava todo arrumadinho e cheiroso, mas ansioso de olho no relógio. Dei um beijo nele, agradeci e disse: “Bom divertimento, pai”! Não se fazem mais avós como antigamente. Ainda bem, né?

Socorro! Meu bebê já tem um metro de altura!

regua

Na verdade, um metro e dois centímetros. As coisas são tão rápidas quando se tem um filho que é fácil não se dar conta de alguns momentos chave. E quando formos medir essa semana, ele já tinha passado dois centímetros dessa marca tão importante. Samuca já tem mais de um metro! Hoje, na hora que saí para o trabalho, olhei para ele dormindo todo esticado na cama e só aí me dei conta do quanto cresceu: está com mais da metade da altura que vai ter quando for um adulto.

Meu filho nasceu com 50 centímetros. Três quilos e seiscentos gramas. Agora tem de-zes-se-is quilos. E já sabe responder à pergunta: “Quando é que você faz aniversário?” “No dia dezesseis de março, mamãe!!!”. Daqui a exatos um mês e três dias faz quatro anos – não é uma data assim tão redonda como quando um bebê completa seu primeiro aniversário. Para chegar onde está agora, grandes etapas já foram vencidas: Já aprendeu a engatinhar, a andar e a falar. Como uma fruta linda no pé, agora meu filho se prepara para amadurecer.

Esses dias pegou o controle-remoto e aprendeu a mudar de canal e aumentar e baixar o som da tv. Já consegue ligar o computador e mesmo sem saber escrever clica no youtube e escolhe os desenhos que vai assistir. O tablet não é um mistério desde o primeiro aniversário, mas agora ele já consegue escolher aplicativos para baixar e, se não fosse a senha, compraria ele mesmo os que quisesse, para desespero do meu cartão de crédito.

Se já quer comer abre a geladeira e escolhe o quê. E me contou que esses dias “teve uma ideia” (ele sempre fala assim: ‘mamãe tive uma ideia!’): queria comer cereal com iogurte, mas o pai estava no banho. Abriu a geladeira e pegou o iogurte, foi ao armário e achou o cereal, subiu no banquinho (!!!) e alcançou o pote. Misturou tudo e quando o pai se deu conta ele já estava sentado à mesa com seu café da manhã.

A partir de agora, vai ser assim. Cada vez mais independente e a gente cada vez mais orgulhoso. E daqui a pouco, quando eu estiver distraída, vou perceber que ele já está no metro e oitenta de altura.