Sobre filhos, escola, tolerância e jabuticabeiras

Jabuticabeira

Escolher a primeira escola do primeiro filho é tarefa difícil. Visitamos várias, e na maioria delas a pessoa que nos recebia abria o “folder” para falar sobre o preço do “produto” antes mesmo de discorrer sobre métodos de ensino, filosofia, prioridades da escola.  Sabíamos de bate-pronto em quantas vezes podíamos dividir a matrícula, mas poucas se dispunham a contar um pouco mais a história do lugar. Lá pela quinta tentativa, paixão à primeira vista: Uma escola pequena, mas com uma área verde difícil de encontrar em uma cidade como São Paulo. E uma imagem que mais parecia uma cena das minhas férias de menina da cidade grande que fugia para o interior: Uma jabuticabeira carregada de frutos ao lado de uma baia onde um cavalo era alimentado pelos alunos.  Logo uma das diretoras nos recebeu, e uma assistente levou o Samuel para conhecer o espaço. Ele, encantado por ver tantas árvores, brinquedos de madeira e principalmente muitas crianças brincando e correndo, nos deixou sem olhar para trás ou dizer tchau.

No caminho para a sala da diretora, avistei uma criança cadeirante. Um menino de uns 5 anos, aparentemente com paralisia cerebral. Perguntei sobre ele e a diretora me explicou que os alunos especiais não eram simplesmente “aceitos” e sim desejados por aquela escola. Mais a frente, uma garotinha com síndrome de down. “Esses alunos estão aqui não porque a lei agora obriga. É assim há 20 anos desde a fundação da escola”, explicou. Lembro de ter pensado naquele momento sobre o quanto eu queria que o Samuel fosse um menino tolerante. Mais do que um homem bem-sucedido, eu queria mais do que tudo que ele soubesse que as pessoas podem pensar, agir, sentir ou ser completamente diferentes dele. E que tudo bem. Ter amigos que ensinassem isso a ele virou uma condição para eu escolher o lugar onde ele ia passar parte da infância e de onde guardaria lembranças, se dependesse de mim, muito boas.

A diretora conversou com a gente por mais de uma hora. Perguntei tudo que me veio à cabeça: Como agiam quando uma criança mordia a outra, ou quando batiam? Ela me explicou que quem mordeu, por exemplo, tinha que participar de todo o processo de melhora do colega mordido. Lavar o ferimento, passar pomada para entender que doeu e se desculpar. Que a bronca por si só não tinha tanto valor quanto isso. Peguei-me pensando novamente: “Não é isso que os homens precisam aprender? As consequências de seus atos?” O assunto “dinheiro” veio à tona só depois que a conversa tinha acabado, e quando perguntei o valor da mensalidade.

Saímos da escola decididos que era pra lá que ele ia. Aquela voz interior dizia: “Achamos. É aqui.” Antes de ir embora, matamos a vontade.  Nós e o Samuca qu,e com a ajuda do pai, colheu suas primeiras jabuticabas no pé. Durante o ano seguinte, quando elas voltaram a frutificar, ele aprendeu a falar e a pedir por elas. “Tem ‘buticaba’ em casa também, mamãe?”.

A jabuticabeira demora vinte longos anos para dar frutos, aprendi isso hoje. Como os nossos filhos, que “caem do pé” mais ou menos com essa idade. E cabe a nós fazer com que o fruto do nosso ventre seja da melhor qualidade.

PS: As jabuticabas nascem apenas no verão. A foto dessa jabuticabeira foi feita no final do ano passado.

Uma opinião sobre “Sobre filhos, escola, tolerância e jabuticabeiras

  1. lindo demais pra quem jà vai ser mamae .
    no caso eu é otimo pq orientaçao e tudo e melhor ainda e vindo de pessoas que ja passaram por essas experiencia..
    sempre que puder estarei passando por aki.

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